“Olga Benario – um breve futuro” não é um romance nem um drama. O espetáculo criado pelo diretor e dramaturgo Luiz Fernando Lobo, fundador da Companhia Ensaio Aberto, é um teatro-documento, baseado unicamente em cartas e documentos pesquisados na Alemanha, no Brasil, na Rússia e na França. A peça estréia dia 5 de agosto na Caixa Cultural – Teatro de Arena, novo espaço da Caixa Econômica Federal.
O projeto foi idealizado em 2003, quando Luiz Fernando e Tuca Moraes iniciaram a pesquisa e captação de recursos. O trabalho contou com a colaboração do pesquisador de imagens Antônio Venâncio, da historiadora Beatriz Kushnir e com material cedido pelo cineasta Galip Iyitanir, diretor do documentário “Olga Benario – uma vida para a revolução”.
Em “Olga Benario – um breve futuro” não há um texto ficcional. Há apenas documentos organizados num espetáculo multimídia, cuja memória é o ponto de partida. O foco do espetáculo não é a relação Olga Benario / Luiz Carlos Prestes. É claro que a farta correspondência de ambos é material fundamental e indispensável para entender a vida de dois militantes que tentaram transformar o mundo, mas as questões suscitadas pela vida de Olga ultrapassam em muito o âmbito de uma relação pessoal, por mais intensa que esta tenha sido. A Revolução Spartaquista, fracassada na Alemanha; a Revolução de 1935, fracassada no Brasil; os campos de trabalho e extermínio na Alemanha Hitlerista; a solidariedade internacional; a posição do Comintern sobre a internacionalização da Revolução são alguns dos temas presentes neste espetáculo/documento.
O núcleo artístico com o qual Lobo vem trabalhando continua ativo. O cenógrafo Cláudio Moura, também fundador da companhia, espalhou em um chão de areia (5 toneladas) vestígios e rastros de diferentes tempos históricos como pistas para o espectador ter acesso à História.
Com projeções em três telões, a tecnologia da multimídia faz explodir imagens históricas e documentos encontrados numa vasta pesquisa, contracenando com os atores todo o tempo. As imagens documentais, filmes, depoimentos e fotos têm um papel fundamental , tão importante quanto o texto. Na reconstrução da História, as imagens de arquivo dão contundência e ajudam no desmonte da história oficial. Para o figurino, a fim de que o mesmo pudesse dar expressividade ao texto, Beth Filipecki criou uma “pele para a resistência”. Para criar a luz, Leysa Vidal partiu da cor dos documentos, criando uma paleta ao mesmo tempo delicada e participante. O maestro e diretor musical Felipe Radicetti compôs uma trilha original, incorporando diversos fragmentos sonoros, documentos de várias épocas. Em cena oito atores conduzem a narrativa. A atriz Tuca Moraes dá voz à protagonista.
O processo de ensaios envolveu formação teórica e prática dos atores, com realização de seminários, debates, estudos e filmes abrangendo temas como a 1ª Guerra Mundial, a Revolução Russa, a Revolução Alemã, o Fascismo e, especialmente, o período histórico compreendido entre 1933 a 1945. A equipe teve vários encontros com historiadores e militantes históricos, além de uma visita de cortesia à Anita Leocádia Prestes e D. Lygia Prestes.
Para atingir um corpo “expressivo e silencioso” os atores tiveram aulas com os bailarinos e coreógrafos Paula Águas e Toni Rodrigues, aulas de esgrima e arco e flecha. Aulas de tiro também foram fundamentais na preparação do coletivo. Fernando Lessa, instrutor e recordista brasileiro de tiro rápido, fez o treinamento.
Teatro Documento
Principalmente no cinema nos acostumamos a pensar a partir da antítese documentário x ficção. No teatro, ao contrário, parece que esta situação não se apresenta. Com exceção do Teatro Documento, proposto e desenvolvido com sucesso por Peter Weiss na década de 60, o documentário no teatro apareceu sempre como a exceção. No Brasil, a Companhia Ensaio Aberto busca diminuir a distância entre documento e ficção desde 1995.
“Bósnia Bósnia” foi a primeira montagem do grupo utilizando esta prática e introduzindo no espetáculo um sistema multimídia. As imagens vindas da Bósnia eram projetadas no teatro junto com as palavras de Mirad, uma criança de 13 anos, filha de um casamento misto entre mãe muçulmana e pai croata. O espetáculo era uma reflexão sobre a guerra midiática e acontecia aqui no mesmo momento em que a guerra acontecia lá e, por isso, as imagens se tornavam fundamentais.
Em 1997, o caminho foi retomado com o “Interrogatório”, de Peter Weiss, no qual todas as palavras foram retiradas dos autos do processo de Nuremberg. Neste espetáculo, as imagens também foram utilizadas como documentos de uma época. Dois anos depois, no espetáculo “Companheiros” foram utilizadas fotografias cedidas por alguns dos principais fotógrafos do mundo, além de imagens cinematográficas, para refletir sobre a resistência na América Latina nos últimos 30 anos.